A EDUCAÇÃO CARTOGRÁFICA DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

A EDUCAÇÃO CARTOGRÁFICA DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

 

Fabiana Cristina Giehl Harlos[1]

Danieli Cristina Cassuli[2]

Jair Antônio Raffaelli[3]

 

 

 

RESUMO: A educação cartográfica de pessoas com deficiência visual nas salas de ensino regular tem enfrentado dificuldades em sua implantação. O ensino tradicional baseado nos modelos videntes se torna um empecilho dentro do processo de ensino aprendizagem destes alunos, torna-se necessária então, a adaptação dos métodos e materiais utilizados pelos professores dentro de sala de aula durante suas aulas. Este trabalho tem por objetivo identificar e descrever técnicas e materiais que podem ser utilizados na produção de variações de mapas táteis adequados para educação cartográfica de pessoas com deficiência visual, sendo produzidos a baixo custo e fácil aplicabilidade dentro de sala de aula. Para alcançar os objetivos optou-se por pesquisa de natureza qualitativa, delineada por pesquisa bibliográfica, pautada em resultados de pesquisas publicadas em formatos de artigos, dissertações ou teses de grupos de pesquisa, que enfocam a temática em abordado. Neste processo foi possível identificar um conjunto de materiais que facilitam a transformação de variáveis visuais de mapas e padrões cartográficos em variáveis gráficas táteis, adotados especialmente em pesquisas e práticas descritas por pesquisadores do LEMADI - Laboratório de Ensino e Material Didático da Universidade de São Paulo – USP e do LABTATE – Laboratório de Cartografia Tátil e Escolar da Universidade Federal de Santa Catarina. Dentre os materiais que mais contribuem para a produção dos mapas táteis, identificou-se o uso principalmente de papel microcapsulado, cortiça, emborrachados, botões, colchetes, barbantes, folha de acetato, carpete de borracha recortado e papelão reciclado, produzindo mapas com utilização de relevos, tamanhos de formas e texturas diferenciadas, favorecendo a construção de imagens mentais e o aprendizado pelas pessoas com deficiência visual.

 

 

Palavras-chave: educação cartográfica; deficiência visual; mapas táteis; materiais.

 

 

 

 

 

ABTRACT

 

 

The education cartographic of people with visual disability in the classroom of regulate education has faced difficulties in its implantation. The traditional teaching based on models seers becomes an obstacle in the process of teaching learning these students, makes-is needed therefore, the adaptation of methods and materials utilized  by teachers in classroom during their teaching. This work has aimed to identify and describe techniques and materials which may be used in the production of variables of maps tactile suitable for cartographic education of people with visual disability, being produced low cost and easy applicability within classroom. To achieve the objective opted-if  by research to nature qualitative, outlined by bibliographical research, based on the results of studies published in formats of articles, dissertations and theses research groups, which focuses on the issues discussed. In this case was possible to identify a range of materials which facilitate the processing of variables visual of maps and standards cartographic data in variables graphic tactile, adopted especially in research and practices described by researchers of LEMADI - Laboratory of Teaching and Didactic material of the University of Sao Paulo – USP and LABTATE – Laboratory of Cartography Tactile and School of Universidade Federal de Santa Catarina. Among the materials that contribute most to the production of maps tactile, identified-if the use mainly role microcapsulado, cork, emborrachados, buttons, hooks, barbantes, leaf acetate, carpet rubber cropped and paperboard recycled, producing maps with using of relief , sizes of forms and textures differentiated, favoring the construction of mental images and learning by people with visual disability.

 

 

Keyword:education cartographic; visual disability; maps tactile; materials

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

            “Não é a cegueira e, sim, a atitude dos videntes em relação aos cegos

a carga mais pesada a ser enfrentada”.

Hellen Keller

 

Nos últimos 30 anos o sistema educacional brasileiro vem passando por transformações de ordem legislativa, política, filosófica, pedagógica e estrutural. Estas mudanças possibilitaram que as escolas acolhessem pessoas que antes não tinham acesso a elas. Dentre outras, pessoas com deficiência física, auditiva, intelectual e visual conquistaram o direito à aprendizagem em contexto regular de ensino.

Sabe-se, porém, que nem sempre os professores foram preparados para acolher e educar as pessoas que apresentam alguma deficiência e este despreparo pode dificultar o processo de ensino-aprendizagem das mesmas. Esta dificuldade pode ser sentida pelas pessoas deficientes visuais, já que frequentemente a escola educa com base em parâmetros e propostas adequadas às pessoas videntes[4].

MASINI (1990) confirma esta afirmação, assinalando que no processo educacional atual tem-se somente a utilização dos parâmetros do vidente, ou seja, com base na visão e que isso, leva o aluno deficiente visual a uma situação de desvantagem, que pode repercutir com rótulo de “atraso”. Consequentemente, não ver, pode significar não compreender parte indispensável do conteúdo que está sendo ensinado, apenas porque os parâmetros utilizados nas propostas de ensino são voltados para as pessoas videntes.

De acordo com CAIADO (2006), pensar sobre as possibilidades que o aluno cego tem para estudar no ensino regular exige a reflexão sobre algumas das práticas pedagógicas que, historicamente, têm sido construídas na educação da pessoa com deficiência visual.

Neste contexto, especialmente no que se refere ao ensino da cartografia, o ensino de Geografia também enfrenta as dificuldades mencionadas, pois as escolas geralmente dispõem apenas de recursos cartográficos (mapas, globos.) adequados para as pessoas videntes (ALMEIDA, 2007).

Desta forma, compreendendo-se que a cartografia ajuda o ser humano a localizar-se no espaço e que esta localização é fundamental também para as pessoas com deficiência visual, percebe-se a complexidade da problemática que pode ser gerada a partir da carência/ausência de recursos cartográficos disponíveis nas escolas. Portanto, acredita-se ser pertinente a identificação de recursos cartográficos alternativos (acessíveis e de baixo custo) que possam ajudar os docentes a promover a “educação cartográfica[5]” de alunos com deficiência visual. 

Com intuito de contribuir com o trabalho destes profissionais, neste artigo buscar-se-á identificar e descrever técnicas e materiais que possam ser utilizados na produção de variações de mapas táteis, úteis para educação cartográfica de pessoas com deficiência visual (cegas ou com baixa visão).

Para o alcance destes objetivos adotou-se pesquisa de natureza qualitativa, delineada por pesquisa bibliográfica, pautada em resultados de pesquisas publicadas em formatos de artigos, dissertações, teses ou grupos de pesquisa, que estudam temas relacionados aos abordados neste trabalho. Através de leitura e análise, foram selecionados especialmente publicações vinculadas ao LEMADI e ao LABTATE, que apresentam conteúdos correspondentes ao interesses desta pesquisa. A bibliografia identificada foi analisada a partir de procedimentos metodológicos segundo BARDIN, pois para a análise de conteúdo será empregada coleta e análise dos dados, compreendendo um conjunto de técnicas de análises das comunicações marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a todo o vasto campo das comunicações (BARDIN, 2008).

 

 

REVISÃO DE LITERATURA

 

 

Atualmente, entende-se por “deficientes visuais”, as pessoas que apresentam impedimento total ou parcial da visão, decorrente de imperfeição do sistema visual. Convencionalmente, diferencia-se a deficiência visual, em parcial, também designada de baixa visão e cegueira, quando a deficiência visual é total.

Do ponto de vista legal tem-se no Decreto 5.296/04 Art. 5.º, a seguinte definição para cegueira, quando a

 

(...) acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60 graus ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores. (BRASIL, 2004)

 

Porém, de acordo com a coleção Saberes e Práticas da Inclusão, desenvolvido pelo Ministério da Educação, “a definição legal de cegueira no âmbito educacional deve ser evitada, por não apresentar o potencial visual útil que o aluno pode desenvolver na execução das tarefas propostas pelo docente”.(BRASIL, 2005, p.16)

É aconselhável que se explore a visão residual do aluno, para que se promova a aprendizagem explorando-se ao máximo o potencial do mesmo. Nos casos de perca total da visão, ainda segundo o Ministério da Educação “O processo de aprendizagem se fará através dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar), (...)”.(BRASIL, 2005, p. 17)

Toda a deficiência, seja ela física, auditiva, mental ou visual, é considerada como uma experiência resultante da interação entre características corporais do indivíduo e as condições da sociedade em que ele vive (CARVALHO, 2008) e disto depreende-se que a sociedade, suas instituições e estrutura geral, devem criar condições para que as pessoas com deficiência, tenham acesso aos mesmos recursos e oportunidades disponibilizados às pessoas que não apresentam nenhuma deficiência.

No contexto destas novas percepções e conceituação da deficiência visual, a escola e todos os que atuam nela, tornam-se responsáveis também pela busca de alternativas e recursos, que possibilitem o ensino/aprendizagem dos conteúdos escolares para as pessoas cegas ou com baixa visão. Pressupondo a importância dos sentidos remanescentes, a cartografia tátil surgiu então como “um ramo específico da cartografia, que se ocupa da confecção de mapas e outros produtos cartográficos que possam ser lidos por pessoas cegas ou com baixa visão” (LOCH, 2008 p. 39).

Em virtude da inclusão de estudantes com deficiência visual em classes regulares de ensino é necessário que as escolas disponibilizem para estes alunos, na disciplina de Geografia, materiais cartográficos adaptados ao tato, sendo a Cartografia Tátil a responsável por dar suporte ao aluno e ao professor, suprindo esta carência.

Isto posto, segundo ALMEIDA (2007 p.120), uma pessoa que apresenta deficiência visual não pode dispensar desse meio de comunicação, que adaptado ao tato, ajuda na organização de suas imagens espaciais internas. Portanto, é necessário adaptar as representações gráficas de forma que estas representações possam ser percebidas pelo tato, passando a dar a pessoa deficiente visual oportunidades semelhantes àqueles que podem ver. Faz-se necessário destacar que para esta autora, o uso de materiais cartográficos táteis, direcionados a esse público, é um dos impasses encontrados por profissionais que atuam com pessoas cegas, pois o material gráfico disponível para pessoas com deficiência visual é muito limitado, o que tem comprometido a percepção do ambiente e o ensino dos conceitos espaciais.

Mesmo considerando que para os deficientes visuais os mapas têm o poder de criar imagens mentais dos lugares e fornecer uma noção de espaço que depende da visão, no Brasil, até o final da década de 1980, os estudos sobre esse assunto eram inexistentes na Geografia, com poucos recursos gráficos na forma tátil, principalmente mapas e imagens. Mas no âmbito internacional, a cartografia tátil é estudada à mais de 40 anos, com inúmeras pesquisas publicadas (ALMEIDA, 2007). 

Atualmente, o Laboratório de Ensino e Material Didático - LEMADI[6], que faz parte do conjunto de laboratórios do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é a maior referência com relação à cartografia tátil no Brasil, não apenas pelo acervo de materiais didáticos táteis de que dispõe, mas também por suas pesquisas e demais atividades.

SENA e CARMO (2009) comentam que no laboratório LEMADE são desenvolvidas várias pesquisas com o objetivo de entender como introduzir noções e conceitos geográficos no universo do aluno com deficiência visual. Nestas pesquisas, além da elaboração de material didático, tem-se sempre uma preocupação com o preparo do professor, no sentido de apresentar técnicas de produção de materiais e metodologias de uso em sala de aula.

O Centro de Cartografia Tátil da Universidade Tecnológica Metropolitana de Santiago do Chile, também faz um amplo trabalho na área da Cartografia Tátil.  Pesquisadores como ALBIOL e BARRIENTOS et al. SENA e CARMO (2005)[7] fazem parte de uma equipe interdisciplinar que vêm pesquisando materiais e métodos de construção, reprodução e aplicação de representações gráficas táteis. Os trabalhos destes pesquisadores têm apontado que os mapas táteis são importantes não só ao deficiente visual, mas também para alunos com visão.

Diante destas considerações, no que se refere ao ensino/aprendizagem o professor

 

“(...) deve ter propostas claras sobre o que, quando e como ensinar e avaliar, a fim de possibilitar o planejamento de atividades de ensino para a aprendizagem de maneira adequada e coerente com seus objetivos. É a partir dessas determinações que o professor elabora a programação diária de sala de aula e organiza sua intervenção de maneira a propor situações de aprendizagem ajustadas às capacidades cognitivas dos alunos”. (BRASIL, 1997, p. 39 grifo nosso)

 

Se faz necessário que os educadores busquem trabalhar juntos no desenvolvimento de propostas que viabilizem a aprendizagem através da utilização das características e potencialidades do aluno com deficiência visual. Os Parâmetros Curriculares Nacionais colocam que “(…) não é a aprendizagem que deve se ajustar ao ensino, mas sim o ensino que deve potencializar a aprendizagem”. (BRASIL, 1997, p.39).

 

 

ANÁLISE DOS RESULTADOS

 

 

Para análise dos resultados, nesta pesquisa, foram selecionadas as publicações de ALMEIDA (2007), BITTENCOURT (2007), CARMO (2009), CARMO e SENA (2005) e SENA e CARMO (2002), CARMO e SENA (2009), VENTORINI e FREITAS (2002) porque as mesmas reúnem em si o relato de resultados de diversas pesquisas com interesses similares ao desta pesquisa. Também foram consultados materiais disponíveis nos sites do Instituto Benjamin Constant e do LABTATE- Laboratório de Cartografia Tátil Escolar, por disponibilizarem informações pertinentes a este tema.

Durante a pesquisa foram identificadas alternativas que contam com o uso de materiais especializadas como o thermoform[8] que submetidos a altas temperaturas através de impressoras com função de impressão em alto relevo ou softwares específicos, dão forma a  mesma, mas as mesmas não serão descritas por seu alto custo e não adaptação ao contexto escolar. O uso da porcelana fria na produção de materiais didáticos táteis, adotado por BITTENCOURT (2007) na produção de um planisfério e um globo terrestre tátil, com representações generalizadas das formas de relevo, foi interpretado como alternativa, embora se entendeu a técnica como demasiadamente complicada para uso no contexto escolar.

O livro “Cartografia Escolar”, organizado por ALMEIDA (2007), traz produções de pesquisadores que estudaram a educação cartográfica de pessoas com deficiência visual, sendo assim, uma das fontes primordiais da coleta de dados, pois dentre outros assuntos, apresenta recursos materiais adotados na elaboração de mapas táteis, testados na ação educativa destinada para pessoas com deficiência visual. Neste, o artigo titulado “Cartografia tátil no ensino de Geografia: teoria e prática” indica um conjunto de materiais que facilitam a transformação de variáveis visuais de mapas e padrões cartográficos em variáveis gráficas táteis, adotados especialmente em pesquisas e práticas descritas por pesquisadores do LEMADI, vinculados ao Projeto Cartografia Tátil do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual de São Paulo-UNESP.

Verificou-se que dentre os materiais mais utilizados para a confecção de mapas táteis, consta em comum em todas estas publicações assinaladas, o papel microcapsulado, a cortiça, emborrachados (carpete de borracha recortado, o popular EVA – Etil, Vinil, Acetato), botões, colchetes, barbantes, mapas produzidos em alumínio com alto relevo, material de bijuteria, folha de acetato e papelão reciclado.

Assinala-se que os emborrachados podem ser facilmente cortados no formato das representações de estados, regiões e nações e servem especialmente para confecção de mapas políticos. A figura a seguir retrata um mapa elaborado com este tipo de material.

 

 

 

 

 
 

FIGURA 01: Altimetria do Estado do Paraná

Organização: CASSULI, Danieli C., HARLOS, Fabiana C. G., 2010

Fonte: Elaborado pelos autores para o Laboratório de Cartografia do Curso de Geografia da Uniguaçu/Faesi. 2010.

 

A produção de maquetes também é indicada para ser trabalhada com alunos deficientes visuais, para que este gradativamente forme representações do espaço que a circunda, bem como para oportunizar que a própria pessoa com deficiência visual elabore representações materiais do espaço.

A colagem de barbantes e pedaços de madeira para delimitar representações de espaços em mapas produz efeitos similares e também é indicada em todas as obras analisadas. Os barbantes são utilizados em diferentes espessuras para dar a noção de limites de espacialidade dentro do mapa. CARMO e SENA (2009), no artigo titulado “A Cartografia e a Inclusão de Pessoas com Deficiência Visual na Sala de Aula: construção e uso de mapas táteis no LEMADI” apresentam o seguinte exemplo:

 

FIGURA 02: Região Metropolitana de São Paulo – Político

FONTE:CARMO e SENA(http://egal2009.easyplanners.info/area03/3400_Sena_Carla.doc)

 

O uso de diferentes tamanhos das formas geométricas pode ser utilizado na produção de mapas que refletem dados quantitativos, o tamanho das formas vincula-se a dimensão dos dados representados.

 

FIGURA 03: Densidade Demográfica por conjunto de estados do Brasil.

FONTE: CARMO (2009, p. 89).

 

A Figura 03 demonstra uma representação, utilizada para demonstrar a densidade demográfica da população brasileira por conjunto de estados. Para a representação do tamanho das populações por limites de espaços específicos, pode-se fazer uso de figuras geométricas proporcionais aos valores em alto relevo feitas com emborrachados e/ou papelão reciclado, combinado com o uso de barbantes para a delimitação dos espaços, estabelecendo assim, uma relação de quantidade, tamanho e espacialidade, contribuindo no sentido de facilitar as representações de espaços e quantidades, dentro do processo de aprendizagem da pessoa com deficiência visual.

CARMO (2009) também sugere para a elaboração de mapas com o uso de materiais com diferentes texturas.

As texturas podem ser utilizadas para a representação de características qualitativas, dando através do tato a noção de localização das características almejadas dentro da escala de trabalho escolhida.

 

       
   

FIGURA 04 – Climas do Brasil               FIGURA 05 – Relevo do Brasil

FONTE: UFSC – LABTATE (http://www.labtate.ufsc.br/)

 

Nas figuras 04 e 05, utilizou-se o recurso de texturas, seja pela utilização de materiais diferenciados (figura 04), ou pelo recurso de impressão no acetato (figura 05). Neste método a preocupação deve se centrar na utilização de texturas que sejam facilmente diferenciadas pelo tato, por vezes, materiais visivelmente diferenciados conferem ao tato texturas homogêneas, não transmitindo as informações almejadas com devida confiabilidade.

Os mapas direcionados para a interpretação das pessoas videntes, possuem padrões determinados e reconhecidos internacionalmente. Muito embora nas ultimas décadas tenha-se produzido vários materiais táteis, ainda não existe um padrão estabelecido para a produção dos mesmos que seja reconhecido mundialmente.

No Brasil, na Universidade Federal de Santa Catarina a partir do ano de 2003, iniciou-se um projeto de pesquisa e extensão objetivando a padronização de mapas táteis.

Durante esta pesquisa percebeu-se que se ao invés de serem utilizadas texturas para discriminar a área for utilizado o braile, o deficiente visual entende com mais facilidade, claro com o auxilio da legenda. Quanto à representação de áreas, verificou-se ainda que as variáveis visuais, formas, tamanho e orientação devem ser utilizadas em conjunto num mesmo mapa para facilitar a discriminação tátil.

Quanto à padronização de componentes visuais para mapas, foram estudados o Quadro, o símbolo de Norte, o lugar do Título, da Escala e da Legenda.

 

FIGURA 06 – Climas do Brasil

FONTE: UFSC – LABTATE (http://www.labtate.ufsc.br)

 

Além da padronização do layout, foram criados outros elementos-padrões, conforme mostra a Figura 07. Assim, por exemplo, toda vez que o DV perceber pelo tato uma linha que corta o mapa na direção Leste – Oeste, identificada no seu início por um símbolo específico, significará para ele que se trata do trópico de Capricórnio. O mesmo acontece para cada um dos oceanos, que não precisam ser marcados em braile no mapa, mas por seu símbolo específico. 

 

 
 

FIGURA 07– Mapa Mundi

FONTE: UFSC – LABTATE (http://www.labtate.ufsc.br)

 

FIGURA 08 - Símbolos utilizados na padronização

 

FONTE: UFSC – LABTATE (http://www.labtate.ufsc.br)

 

Neste contexto o deficiente visual depende do sentido tátil para compreender e formar conceitos. A partir disto infere-se que os recursos didáticos - materiais táteis assumem grande importância na educação dos mesmos, porém, a padronização que existe é voltada a produção de mapas de grande escala, em pequena escala não foi encontrado durante esta pesquisa.

Pode-se afirmar que a carência de material adequado pode conduzir a aprendizagem da criança deficiente visual “a um mero verbalismo, desvinculado da realidade e, alguns recursos materiais podem suprir lacunas na aquisição de informações pela criança deficiente visual”. (BRASIL,1995)

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

            “Tudo é possível até que se prove impossível.

E ainda assim o impossível pode sê-lo apenas por um momento”

Pearl S. Buck

 

A deficiência visual acarreta implicações na construção do conhecimento, sendo necessário que se utilize o potencial visual útil e os sentidos remanescentes de cada aluno, para que ocorra realmente o aprendizados.

A cartografia tátil se apresenta, como um recurso que viabiliza o entendimento da linguagem cartográfica, atuando como facilitadora do ensino e aprendizagem, principalmente dos alunos com deficiência visual.

Diante do exposto, no arcabouço de conceitos que as disciplinas nos trazem, principalmente na geografia, quando se trata de Cartografia, buscou-se por  alternativas já existentes para o ensino de pessoas deficientes visuais, com o intuito de mostrar às pessoas interessadas, principalmente aos professores, que é possível promover uma educação mais democrática, sendo necessários para isso recursos  simples como os mapas táteis, dependendo somente da capacidade criatividade dos interessados.

Foi possível apresentar neste artigo algumas alternativas na produção de mapas táteis, dentre elas, a utilização de materiais diversos, utilização de relevos, tamanhos de formas e texturas diferenciadas. A produção de mapas táteis com materiais de considerável baixo custo, nos chamou a atenção, pois estes se apresentam para a geografia como um dos os principais responsáveis pelo entendimento de determinados conteúdos, sendo aos deficientes visuais ponto chave, a partir da construção de imagens mentais daquilo que estão tateando, assimilando o conhecimento que o professor está buscando transmitir, contribuindo  para com o ensino de cartografia, dentro da disciplina de Geografia, nas séries do ensino regular.

Esta coleta de dados reforçou a compreensão da importância da cartografia tátil na vida cotidiana das pessoas com deficiência visual, contudo, apesar de ter sido possível identificar um conjunto relevante de alternativas para a educação cartográfica de pessoas com deficiência visual, constatou-se que são poucas as publicações a respeito destes materiais, sendo também poucos os padrões cartográficos existentes, no que refere aos tipos de mapa em questão, estando o reconhecimento desta padronização em estagio inicial.

Tomando consciência da importância existente de adequação dos materiais e métodos utilizados pelo professor em sala de aula, para o ensino de cartografia para os alunos com deficiência visual, é relevante que os professores recebam orientação sobre as necessidades e possibilidades de adequação em suas aulas e da possibilidade de produzir e utilizar mapas táteis com a turma, como meio facilitador do processo de ensino.

Não somente aos discentes da disciplina de Geografia interessa os benefícios proporcionados pelos materiais táteis, professores de outras disciplinas também podem se beneficiar usar dos recursos assinalados para produção de representações dos conteúdos correlatos as suas disciplinas. Aliás, nada impede que os mapas táteis sejam adaptados à linguagem visual e utilizados também com alunos videntes.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

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ALMEIDA, de L. C.; LOCH, R. E. N. Mapa tátil: passaporte para a inclusão. In: EXTENSIO - Revista Eletrônica de Extensão, 3., 2005.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. 5º ed. Lisboa, Pt: Edições70, 2008.

BRASIL, Presidência da República. Decreto nº 5.296 de 2 de Dezembro de 2004. , Brasília, 2004 Disponível in Acessado em setembro 2010.

_____, Ministério da Educação. Saberes e práticas da inclusão: Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. Brasília, 2005. Disponível in: http://cac-php.unioeste.br/projetos/pee/arquivos/acervos_diversos/de_co_p_o_at_as_nec_edu_esp_d_alu_ce.pdf. Acessado em setembro de 2010.

_____, Ministério da Educação. Recursos Didáticos na Educação Especial, Brasília 1995. Disponível in:http://www.ibc.gov.br/?itemid=102. Acessado em outubro de 2010

______, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais : introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília : MEC/SEF, 1997. Disponível in. http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf . Acessado em setembro de 2010

BITTENCOURT, A. Proposta de representação tátil do relevo: construção e aplicação de materiais didáticos inclusivos [monografia]. Departamento de Geografia FFLCH, USP. São Paulo: 2007.

CAIADO, K. R. M. Aluno deficiente visual na escola: lembranças e depoimentos. 2.ª ed. Campinas: Ed. Autores Associados, 2006.

CARMO, W.R.do. Cartografia tátil escolar: experiências com a construção de materiais didáticos e a formação continuada de professores [Dissertação]. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP: São Paulo; 2009.

CARMO, W. R. do e SENA, C. R. G. de. A Cartografia e a Inclusão de Pessoas com Deficiência Visual na Sala de Aula: construção e uso de mapas táteis no LEMADI. Disponível in: http://egal2009.easyplanners.info/area03/3400_Sena_Carla.doc. Acesso dia 03 de mar. de 2010.

CARMO, W. R. do e SENA, C. R. G. Uso de maquetes no ensino de conceitos de Geografia Física para deficientes visuais. In. XI Congresso Internacional de Geografia. Chile, 2005.

CARVALHO, R.E. Escola Inclusiva:a reorganização do trabalho pedagógico. Porto Alegre: Mediação, 2008.

FERNANDES, S. H. A.A. Uma Análise Vygotskiana da apropriação do conceito de simetria por aprendizes sem acuidade visual. São Paulo:PUC/SP, 2004. Disponível  in; http://www4.pucsp.br/pos/edmat/ma/dissertacao/solange_hassan_fernandes.pdf  Acessado em setembro 2010

LOCH, R. E. N. Cartografia Tátil: Mapas para deficientes visuais. Portal da Cartografia. Londrina, v.1, n.1, maio/ago., p. 35 - 58, 2008. Disponível in; http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/portalcartografia

MASINI, E. F. S. O perceber e o relacionar-se do deficiente visual; orientando professores especializados. Revista Brasileira de Educação Especial. p. 29-39, 1990.

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SENA, C.R.G.; CARMO, W.R. Produção de mapas para portadores de deficiência visual na América Latina. In: X Encontro de Geógrafos da América Latina. São Paulo, 2005.

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VENTORINI, S. E.; FREITAS, M. I. C. Cartografia Tátil: Pesquisa e Perspectiva na Alfabetização Cartográfica de Alunos Cegos e com visão subnormal. Geo UERJ, Rio de Janeiro, v. 11, p. 1-10, 2003. 

 



[1]              Acadêmica do 8º período do curso de Geografia da Uniguaçu/Faesi

[2]              Acadêmica do 8º período do curso de Geografia da Uniguaçu/Faesi

[3]              Professor MS Jair Antônio Raffaelli – Orientador

[4]              Segundo FERNANDES (2004, p. 29) “O termo “vidente” refere-se aos individuos com acuidade visual dentro dos padrões normais”.

[5]              Para fins deste trabalho, entendemos educação cartográfica como um processo que se refere ao ensino da interpretação dos recursos adotados pela cartografia para a representação do espaço. 

[7] ANAIS DO XXVI CONGRESO NACIONAL, XI INTERNACIONAL DE GEOGRAFÍA. Pontificia Universidad Católica de Chile, en Santiago entre el 24 y 28 de octubre de 2005.

[8] Material plástico, que submetido a temperaturas altas, ganha formas. (impressoras especializadas).